Já sabia que os primeiros dias com lente causariam desconforto aos olhos. E foi assim que aconteceu com os meus. Era outono, o vento no fim da tarde enfrentava a íris e secava o objeto rígido. Entrei no ônibus para ir embora, uma Sul-Oeste com bancos disponíveis no fim de tarde. Achei que estava com sorte. Pelo menos meus olhos pararam de arder e lacrimejar. Ma só até o terminal Oeste.
Gente bonita me chama a atenção. E eu secava ela assim que a vi, após descer do busão. Só recebi dois olhares como retorno. Mas caminhei até o ponto da linha do Santo Onofre. Foi chegar perto que, ao torcer o pescoço para olhar, viro depressa os olhos e a lente direita não segue o ritmo. Pronto, ela estava fora da íris e eu fora de combate. Não enxergava nada, estava com ela desde a manhã. Fui ao banheiro.
Não cheguei a entrar. O mau cheiro impediu. Fechei os olhos e tentei manusear a lente pelo supercílio. Em vão. Ela dançava ao som da música que escutava no fone do celular. Tirei o fone, mas ela continuou a sambar. E parece chamar convidados.
– Algum problema, rapaz?
–Tudo certo minha senhora..., disse a uma daquelas mulheres que adoram puxar conversa no terminal. A Santo Onofre chegou.
Subi no ônibus e sentei no banco após a roleta. O olho direito já estava vermelho e eu praticamente chorando. Aproximasse de mim um corpo, percebo que ela olha para mim com piedade. O desespero já tomava conta de mim. Pedi se a moça tinha um espelho pequeno. Ela me concedeu um rosa. Senhoras já me olhavam (é impressionante o número de idosos nos ônibus de Cascavel).
Foi eu aproximar o espelho à minha visão que, de repente, a lente voltou pra íris. Não precisei nem usar o espelho e já fui devolver. Ao me virar no banco, era ela, o corpo que vi após descer da Sul-Oeste estava na Santo Onofre. O espelho era dela. Os olhares já não eram de sedução, acho que era de pesares. Eu podia adivinhar seu pensamento... “putz, ele me olhava porque estava com timidez em pedir um espelho, chora como uma moça e confere a maquiagem no ônibus”. Desci no ponto seguinte, com a autoestima baixa, mas pelo menos com a lente no lugar certo.
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